
Motores, disjuntores, sensores e controladores fabricados em continentes diferentes conversam entre si e cabem nos mesmos painéis por um motivo pouco lembrado: existe um conjunto de regras internacionais que define termos, unidades, ensaios e características desses equipamentos. Grande parte dessas regras vem da Comissão Eletrotécnica Internacional, a IEC, que completou 120 anos em junho de 2026.
No fim do século XIX, a eletricidade avançava rápido, mas cada país e cada fabricante usava sua própria terminologia, suas próprias unidades e seus próprios critérios de especificação. Cientistas e engenheiros perceberam que essa falta de uma linguagem comum atrasava a pesquisa e dificultava o comércio de equipamentos elétricos.
A proposta de uma comissão permanente ganhou força em congressos internacionais de eletricidade e se concretizou em Londres, em 1906. A primeira reunião aconteceu nos dias 26 e 27 de junho daquele ano, com representantes de países da Europa, da América do Norte e do Japão. O dia 27 de junho de 1906 é considerado a data oficial de fundação, e o físico britânico Lord Kelvin foi eleito o primeiro presidente da comissão.
Nas décadas seguintes, a IEC trabalhou em nomenclatura, símbolos, classificação de máquinas elétricas e grandezas. Mais tarde, a sede foi transferida para Genebra, na Suíça, onde permanece. Atualmente, a entidade reúne comitês nacionais de dezenas de países e publica milhares de normas, que cobrem desde a geração de energia até eletrônicos de consumo.
A IEC não é um órgão de governo. Cada país participa por meio de um comitê nacional, e as normas são elaboradas em comitês técnicos que reúnem especialistas de fabricantes, usuários, laboratórios e universidades. O texto final resulta de votação entre os países membros, o que dá às normas o caráter de consenso internacional.
No Brasil, muitas dessas normas são adotadas pela ABNT e publicadas com a sigla ABNT NBR IEC. Isso permite que um projeto brasileiro siga exatamente o mesmo critério técnico usado na Europa ou na Ásia.
Quem trabalha com manutenção e automação lida com normas da IEC todos os dias, muitas vezes sem citar o número. Alguns exemplos:
A padronização internacional traz benefícios práticos. Quando um motor queima, é possível substituí-lo por outro de outro fabricante com a mesma carcaça, a mesma potência e a mesma classe de eficiência. Quando uma área é classificada como atmosfera explosiva, a marcação do equipamento diz em que zona ele pode ser instalado. Quando o CLP precisa ser trocado, a programação em linguagens padronizadas facilita a migração.
Há também um efeito sobre a segurança e a qualidade. Normas de ensaio garantem que um disjuntor interrompa a corrente de curto-circuito que promete interromper, e normas de invólucros garantem que um sensor especificado para lavagem resista de fato à água.
Nesses 120 anos, a IEC ajudou a transformar a eletrotécnica em uma linguagem compartilhada. Para a indústria, isso se traduz em peças intercambiáveis, projetos comparáveis e critérios claros de segurança.
A IEC cuida das normas de eletrotécnica e eletrônica, e a ISO cobre a maior parte das demais áreas. As duas trabalham em conjunto em temas comuns e publicam normas conjuntas, identificadas como ISO/IEC.
Muitas são adotadas pela ABNT e publicadas como ABNT NBR IEC. Nesses casos, passam a ser normas brasileiras, com o mesmo conteúdo técnico da versão internacional.
A IEC foi fundada em Londres, em 1906, e atualmente tem sede em Genebra, na Suíça.